Catástrofe política.
Sim, a Operação Patmos, deflagrada no dia 18, inspirada na pequena ilha grega no Mar Egeu, local conhecido por ser o escolhido pelo apóstolo João em seu exílio, de acordo com o livro bíblico do Apocalipse, significando ainda onde o mesmo recebeu as revelações do Apocalipse, registra emblematicamente a catástrofe política do Brasil atual. Pela Operação Patmos realizada pela PF e apresentada pela PGR, o empresário Joesley Batista tenta demonstrar, em gravação, o aval que teria dado o Presidente Michel Temer à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, além de provas de pedido de propina pelo senador Aécio Neves, de cerca de 2 milhões para que o mesmo arcasse com honorários advocatícios para sua defesa nas investigações da Operação Lava Jato. Também, vários outros políticos de renome são mencionados em atos de corrupção, principalmente os ex-presidentes Lula e Dilma, que teriam recebido juntos U$150 milhões de dólares da JBS em depósitos em conta corrente na Suíça e, pasmem, 50 mil a um procurador da República, Angelo Goulart Villela, que atuou na Operação Greenfield sobre desvios dos Fundos de Pensão. Ao Partido dos Trabalhadores, na campanha de 2014, a propina teria sido de 300 milhões e ao senador José Serra (PSDB) teriam sido destinados 20 milhões. Estas e mais uma dezena de fatos escabrosos envolvendo 1829 políticos comprados, relatados na delação premiada mais marcante da história penal brasileira.
Na sua primeira manifestação, Michel Temer negou os fatos e jurou não renunciar. Teve apoio de defensores como Roberto Jefferson, do PTB e Carlos Marun, do PMDB e desde já contratou um dos maiores criminalistas para defendê-lo, Antônio Claudio Mariz de Oliveira, seu amigo há 40 anos. No mesmo sentido, Temer, no dia de hoje, voltou a se manifestar através da televisão, agora munido de reportagem do jornal Folha de S.Paulo, que mencionara que um perito havia constatado que houvera manipulação e edição da gravação de Joesley com o presidente. Adicionou que o empresário teria lucrado milhões com a delação, na desvalorização do dólar, que, na véspera, adquirira em baixa, além de vender ações da JBS, também na véspera, em alta. Fica, agora, a palavra de um contra a do outro, para que a Justiça esclareça se, realmente, houve manipulação, para que os verdadeiros culpados sejam responsabilizados. Aécio, afastado pelo STF das funções no Senado, além de ter irmã e primo presos, deixou a presidência de seu partido e aguarda os próximos passos de responsabilização.
O Brasil, que desde 2014 vem convivendo com denúncias, escândalos, prisões, condenações de políticos, está sangrando e ferido pelas últimas notícias envolvendo os crápulas políticos e seus envolvimentos com os marginais empresários.
Vê-se, agora, que o Brasil teve eleita uma presidente corrupta, ora cassada pelos atos e, por incrível que possa parecer, caso o segundo colocado nas eleições, Aécio Neves, fosse o eleito, o Brasil estaria na mesma situação, pois a tragédia teria apenas mudança de personagens.
Com razão, toda a mídia comenta a situação insustentável que ora se apresenta. No exterior, a imprensa francesa foi pontual, o Le Monde, do dia 19, acentuou "Temer parecia encarnar o crepúsculo da velha elite de Brasília, arrastada pela Lava Jato". Já o Le Figaro marcou: "a gravação de Temer teve efeito de um cataclismo em Brasília.". Por sua vez, o brasileiro Piauí citou Aécio como: "cadáver político". O jornal O Globo, de forma inédita no Brasil, à semelhança do que faz o New York Times nos EUA,tomando partido de candidatos nas eleições americanas, em Editorial do dia 19, intitulado "A renúncia do presidente", defende abertamente a renúncia de Temer: "Nenhum cidadão, cônscio das obrigações da cidadania, pode deixar de reconhecer que o presidente perdeu as condições morais, éticas, políticas e administrativas para continuar governando o Brasil".
O colunista Luiz Carlos Azedo, do jornal Correio Brasiliense, de 19 de maio, em sua coluna intitulada "Nas entrelinhas: O dia do fico", resumiu a situação atual de Temer: "Temer governa de costas para a opinião pública, legitimado pelo mandato de vice-presidente eleito e sucessor legal da ex-presidente Dilma Rousseff, por causa do impeachment. A mesma Constituição que lhe pôs na Presidência autoriza que seja investigado por tentativa de obstrução da Justiça pela Operação Lava-Jato e que seu impeachment seja aceito por crime de responsabilidade, sem falar na cassação da chapa que o elegeu, por abuso de poder econômico e político. São três situações traumáticas que poderiam ser evitadas com a renúncia ao cargo. Nessas circunstâncias, as chances de Temer ter o mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral, no julgamento da chapa Dilma-Temer, o que parecia impossível, agora são muito grandes. Seria uma maneira de evitar a sangria desatada provocada por outro processo de impeachment".
Realmente, a situação é grave.
E, diga-se de passagem, a delação de Joesley, além de descortinar o horizonte sombrio brasileiro, permite meditar se não é tremendamente injusto que um delator do porte dele, seja beneficiado pela lei e saia livre de qualquer punição penal, tendo uma participação criminosa reiterada por anos e que causou tantos prejuízos à Nação. Joesley também auferiu lucros fabulosos com a delação e foi, leve, livre e solto para Nova Iorque com a família.
Bobbio (Dicionário de Política, v.1. Brasília: ed. UNB, 1995. p.291) já afirmava que corrupção "designa o fenômeno pelo qual um funcionário público é levado a agir de modo diverso dos padrões normativos do sistema, favorecendo interesses particulares em troco de recompensa". E mais: "é fator de desagregação do sistema" (p.292). Ora, Temer, Aécio, Lula, Dilma, etc. são exemplos fiéis de representantes da corrupção e da nossa atual desagregação do sistema.
O Brasil, atolado em problemas de toda ordem, exige que a ordem pública seja restabelecida e os atores do Congresso que ostentam a impureza dos corruptos sejam enquadrados e expurgados pela Justiça. No entanto, que essas providências sejam rápidas, aparecendo o STF com grande responsabilidade no quadro atual, para que não ocorra o mal da Justiça tardia tão bem retratada pelo brilho de Rui Barbosa: "justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito escrito das partes e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade" (in, Oração aos Moços. Rio de Janeiro: Forense, s.d. p.47).
O Brasil não pode esperar. A Justiça deve resgatar o orgulho nacional tão vilipendiado pela classe política e empresarial.
Montesquieu (O Espírito das Leis) em sua época já preconizava: "Quando uma República é corrompida, não há remediar-se qualquer dos males resultantes, a não ser afastando a própria corrupção e restabelecendo os princípios".
sábado, 20 de maio de 2017
sábado, 1 de abril de 2017
Centenário do nascimento de Alfredo Palermo. Subsídios biográficos.
I.
Justificativa.
Alfredo
Palermo foi uma das mais significativas personagens francanas do século 20 e
primórdios do século 21. Foi professor
nos cursos secundário e superior e, em todos deixou sua marca indelével de
mestre com M maiúsculo. Além disso, teve sob sua responsabilidade a criação de
três faculdades, todas elas incorporadas a universidades e a autoria dos dois
mais importantes hinos de Franca. Foi deputado federal por uma legislatura,
apresentando grandes projetos de lei, defendendo também os mais importantes de
interesse nacional e brilhando como orador no plenário, nas vezes em que atuava
em seus projetos ou nos que aparteava. Além de educador, foi grande advogado no
Tribunal do Júri, jornalista por mais de 60 anos, poeta, cronista, escritor, autor
de obras ligadas ao direito, história, literatura, civismo. Teve ainda
participação em entidades e clubes, como o Rotary Club, em que sempre se
destacou e onde angariou suas melhores amizades. Os francanos, no período, são
testemunhas, como ex-alunos ou cidadãos, de suas atividades e de seu amor
incontido pela cultura e por Franca. Sua morte, ocorrida em dezembro de 2009,
há quase 8 anos, período em que foi lembrado poucas vezes, justifica os
presentes dados biográficos que, ao lado de outros publicados em outros
segmentos anteriormente, poderão servir àqueles que, no futuro, se interessarem
em conhecer parte da vida e da obra do “professor Palermo”, como era mais
conhecido. Como afirmou o poeta mexicano Octávio Paz “os poetas não têm
biografia. Sua obra é sua biografia.”
II.
Histórico.
Alfredo
Palermo nasceu em Franca, SP, no dia 01 de abril de 1917. Hoje, portanto,
comemoramos o centenário de seu nascimento. Filho de imigrantes italianos, João
Palermo e Maria Teresa Tortorelli Palermo, oriundos da cidade de Trecchina
(Basilicata, Itália). O progenitor veio primeiro, nos primórdios do século 20,
aos 18 anos, e a mãe, dois anos após, aos 20, para, casados, iniciarem a vida
no Brasil. Tiveram numerosa prole: 8 filhos, Maria, Américo, Alfredo, Elza,
Hélio, João, Leandro e Nelson.
João Palermo Maria Teresa T. Palermo
Alcídes
Franchini e Maria, Nydia, Nelson atrás, com filho Nelsinho e Hélia, Américo e
Maria Stella, Altina e Hélio, Elza e Hermantino, Alfredo, Leandro e João Júnior
agachados.
Como
bem assinalou o próprio Alfredo, comentando a vida do pai, em sua obra Letras Avulsas e Ritmos Proscritos, na
“Crônica familiar” (p.131) a luta do imigrante, no início, foi dura, como a da
maioria que aqui aportava. João, o patriarca começou como vendedor de bacias, panelas,
cafeteiras, peças de cutelaria, tudo levado no lombo de animais e venda em
fazendas da região. O passo adiante foi a montagem de uma pequena loja de
consertos de sapatos na histórica Rua da Estação (Rua Voluntários da Franca).
Daí, partiu para a criação de uma sapataria, ao lado do prédio da Sociedade
Italiana. A seguir, tornou-se representante de uma fábrica, Ferrari e Felipe,
de São Paulo, trabalhando na região da Mogiana e Sul de Minas, durante 7 a 8
anos.
Em
1928, João Palermo criou sua primeira fábrica, em sociedade com Braz Grisi. Em
1932, passou a atuar como firma individual, agregando o filho Américo que, por
sua vez, foi trazendo outros irmãos: Elza, João Jr., Hélio, Leandro e Nelson.
Estes, a seguir, se tornaram industriais em outras empresas próprias e, da
prole, somente Maria e Alfredo não se dedicaram ao ramo calçadista. Maria casou
com Alcides Franchini, proprietário de um posto de gasolina tradicional e
Alfredo se dedicou à advocacia e ao ensino.
III.
Família.
Alfredo
Palermo se casou com Nydia da Silva Castro Palermo em 04 de março de 1943,
pouco tempo após assumir sua cadeira de Português, por concurso, no EETC de
Franca. Teve três filhos: Maria Teresa Palermo Carvalho, casada com Torquato
Celso Caleiro Carvalho; Alfredo Palermo Júnior, casado com Maria Helena Tenório
Palermo e Carlos Eduardo de Castro Palermo, casado com Fernanda Kellner de
Oliveira Palermo. Teve quatro netos: André, Adriana, Daniel e João Wilson; e dois
bisnetos: Eduardo e Luca.
IV.
Formação.
Alfredo
Palermo teve sólida formação cultural, iniciando seus primeiros estudos com uma
professora e escritora querida, Evelina Gramani, a quem sempre voltava seu
carinho e reconhecimento.Prosseguiu
seus estudos no tradicional Colégio Champagnat, escola excelente, cujos
professores, irmãos maristas, proporcionavam sólida educação para quem
pretendia alçar voos mais altos.
O
ensino superior foi feito na USP de São Paulo, ingressando no ano de 1935 em Direito
na São Francisco, concluído em janeiro de 1940, e em Letras, concluído em
dezembro de 1939. Também laureou-se em Criminologia, no Instituto de
Criminologia do Estado de São Paulo, concluindo o curso em novembro de 1939. Na
Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP) venceu o primeiro concurso
de oratória ali realizado, fato que lhe abriu sobremaneira as portas para a
carreira, principalmente no Tribunal do Júri e no magistério.
V.
Carreira.
Alfredo
Palermo após formado iniciou sua carreira como advogado e professor na cidade
de Marília, então uma jovem urbe. Lá, em pouco tempo, granjeou sólidas amizades
graças ao destaque na advocacia e no jornalismo, onde era chefe de redação do
hoje extinto Correio de Marília. Foi também diretor da Associação Atlética São
Bento de Marília, clube de futebol e do Aeroclube de Marília, participando também
dos inúmeros eventos musicais e culturais lá constantes.
Sua
carreira meteórica e cheia de sucesso em Marília foi interrompida porque, tendo
prestado concurso no magistério secundário, e sido aprovado, nomeado em 04.08.1942,
passou a lecionar português em Franca, no EETC, uma das melhores escolas de
Franca, onde permaneceu por 25 anos, tendo sido professor de extensa gama de
jovens que se destacaram posteriormente na vida social, cultural e econômica da cidade.
Paralelamente
exerceu a advocacia e, graças à oratória e à vasta cultura, teve sucesso no
Tribunal do Júri, marcando época no setor devido à repercussão das várias
absolvições em casos difíceis em que esgrimia com seu grande conhecimento
jurídico com excelentes promotores, como Hélio Bicudo.
O vírus
do jornalismo nunca abandonou Alfredo e, já em Franca, passou a colaborar com o
jornal O Comércio da Franca, dirigido por Ricardo Pucci, redigindo as colunas
Gazetilha e Objetiva. Esta paixão durou por mais de 60 anos, passando ainda
pelos diretores Alfredo Henrique Costa, Corrêa Neves, Sônia Machiavelli e seu
filho Corrêa Neves Jr.
Concomitantemente ao seu intenso magistério, Alfredo,
juntamente com os professores Oliveiro Diniz da Silva e José Garcia de Freitas,
adquiriram tradicional escola de contabilidade de Franca, o Instituto Francano
de Ensino (Ateneu), construindo prédio próprio em local central e que, por
dezenas de anos formou os melhores contadores da cidade. Ali também foi o
embrião da UNIFACEF, universidade municipal atual, com a criação por Alfredo e
sócios do curso de Ciências Econômicas, em 20 de março de 1951. Também ali foi
criada, em 1974, por Alfredo e o sócio de então Dr. Oliveiro, a Instituição
Educacional de Franca, com dois cursos (Letras
e Estudos Sociais) que, após 1976, foram absorvidos pela recém criada Unifran.
Na década de 50, Alfredo Palermo que já se destacava na cidade, foi procurado
pelo ex-governador André Franco Montoro, ex-contemporâneo das Arcadas (São
Francisco) que o convidou para entrar no então Partido Democrata Cristão e
também para que postulasse uma cadeira na Câmara Federal. Alfredo, na qualidade
de suplente, assumiu por três anos (1955-1958) a cadeira de Queiroz Filho que
assumira o cargo de secretário do governo estadual. Teve brilhante participação
como deputado federal e orador, numa época de ouro onde brilhavam Carlos de
Lacerda, Ulisses Guimarães, Aurélio Vianna, Nestor Jost, Menotti del Picchia,
Ranieri Mazzili, Fernando Ferrari, Pereira Lima, Franco Montoro, Jânio Quadros,
Padre Godinho e tantos outros políticos na acepção da palavra. Integrou a Comissão de Educação e Cultura
(1955 a 1957) atuando intensamente no projeto de criação da Lei de Diretrizes
Básicas da Educação (PL 2222/1957, Lei n.4024/1961), havendo discursos seus memoráveis nos anais:
http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD05JUN1957.pdf#page=31;
http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD13JUN1957.pdf#page=28; http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD28MAI1958.pdf#page=34.
Foi,
ainda, o autor do projeto de lei que estabelecia o seguro de vida do
trabalhador rural, bem como aquele que criou o salário família para o mesmo. A
preocupação com o setor ainda o fez apresentar o projeto de lei que destinava o
crédito anual de 500 milhões de cruzeiros (moeda da época) para o ensino rural
pelo prazo de 10 anos. Apesar da participação
produtiva, Alfredo não teve o devido reconhecimento do eleitorado francano,
numa época de intensa disputa eleitoral, com atuação negativa de alguns
adversários, não logrando a reeleição por pequena margem de votos, sendo que o
rival mais próximo também não se elegeu, ficando a cidade sem representante na
época. Coisas da política que Alfredo logo absorveu, tanto que nunca mais se
interessou pela mesma.
Cópia da carteira
funcional de deputado federal
A
vida de Alfredo Palermo, no entanto, era aquilo que mais gostava, ou seja, o
magistério. Além do destaque como professor de Português para inúmeras
gerações, foi professor na Faculdade de Direito de Franca e seu diretor de 1960
a 1972 e de 1976 a 1980. Em sua gestão foi inaugurado o atual prédio da
Faculdade.
Em
08.06.2007, recebeu da Faculdade de Direito de Franca, o Diploma de Professor
Emérito da Faculdade de Direito de Franca (o primeiro) “pela significativa
contribuição para a institucionalização da Faculdade de Direito.”
Em
1962 foi criada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Franca. Em 1963,
atendendo convite do então governador do Estado, Adhemar Pereira de Barros,
Alfredo teve a honra de instalar a faculdade, sendo os primeiros cursos:
História, Geografia, Letras e Pedagogia. A faculdade teve início precário nas
dependências do EETC e depois em um prédio de uma escola secundária até 1967.
Em 1968, na gestão de Alfredo, foi adquirido o prédio do antigo Colégio de
Nossa Senhora de Lourdes, no centro da cidade. Em 1976 a Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras foi incorporada à atual UNESP.
Alfredo
Palermo teve atuação intensa também no setor educacional e cultural na vizinha
cidade de Ribeirão Preto. Foi professor de Direito na Faculdade Moura Lacerda
(hoje Centro Universitário Moura Lacerda), na Barão de Mauá (hoje Centro
Universitário Barão de Mauá) e Faculdade de Direito Laudo de Camargo da UNAERP.
Foi membro atuante da Academia Ribeirãopretana de Letras, a partir de
06.08.1986, ocupando a cadeira número 13, cujo patrono é Augusto dos Anjos. Foi
ainda membro da Academia Francana de Letras, a partir de 1998, ocupando a
cadeira número 39, de Vicente Augusto de Carvalho.
Na
carreira universitária, Alfredo Palermo doutorou-se pela USP, em 1973, e foi
livre docente e titular por concurso na UNESP em 1979. Foi
professor dos cursos de pós graduação da UNESP, Direito e também da UNIFRAN,
Direito.
Em
1979 participou na Faculdade de Direito de Estrasburgo (França) da 1ª sessão do
“Institut International des Droits Humains” e do “VII Cours de Recyclage de
l’Enseignement des Droits de l’Homme”, apresentando trabalho. Posteriormente,
baseado neste estudo publicou uma de sua obras “Os Direitos Sociais no Brasil”
(1983).
Em
janeiro de 1983 participou, em Lisboa, Portugal, na Universidade Católica
Portuguesa - Faculdade de Ciências Humanas, de um Curso de Especialização em Processo
Civil, em Seminário de Estudos Jurídicos para advogados brasileiros. Em
1996 participou em Roma, Itália, de um Seminário de Processo, na Pontifícia
Universidade Urbaniana de Estudos.
Foi
membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, desde 01.11.1995.
Foi
presidente da Ordem dos Advogados de Franca - Subseção de Franca no biênio 1977
a 1979. Também havia sido 1º secretário
na gestão 1953-1955. Em
14 de setembro de 1989 recebeu Preito de Gratidão, da presidência do Conselho
Seccional da OAB-Brasil, à época presidido pelo Dr. Antônio Claudio Mariz de
Oliveira, “pelos relevantes serviços prestados à classe, à justiça e à
sociedade durante meio século.”
Foi
membro por décadas do Rotary Clube de Franca, com intensa atuação, sendo ainda
Governador do Distrito 4540 (1953/1954). Em 28.06.2000, recebeu Diploma de
Honra ao Mérito, do Rotary International, através de seu presidente, pelos 50
anos de Rotary.
VI.
Outras homenagens importantes.
Homenagem
da Câmara Brasileira do Livro, na Semana do Escritor Brasileiro. Setembro de
1977.
Homenagem
(placa de prata) da Faculdade de Direito de Franca, “pelo reconhecimento pela
obra que ajudou a consolidar.” Março de 1983.
Homenagem
(placa de prata) do Lions Clube Franca Sobral à “sua originalidade,
sensibilidade e a beleza poética ao civismo francano”. 1991.
Homenagem
(troféu de madeira) do 15º Batalhão da Polícia Militar do Interior. Franca, SP,
em “gratidão e respeito dos soldados da paz”. Janeiro de 1995.
Laurea-Juris
da Prefeitura Municipal de Franca, no 175º aniversário de Franca, “pela
destacada atuação no campo do Direito Público, no município de Franca.”
Novembro de 1999, gestão Gilmar Dominici.
Homenagem
(placa de prata) “da Comunidade Acadêmica da Uni-Facef ao seu fundador e diretor
(1951/1953) Prof. Dr. Alfredo Palermo, pela sua grandiosa iniciativa e
concretização do ensino universitário de Franca.” Dezembro de 2004.
Homenagem
(placa de prata) do CIEE – Centro de Integração Empresa Escola; AFC - Academia
Franca de Letras e Jornal Comércio da Franca, por ocasião do 1º Prêmio
Literário “Dr. Alfredo Palermo”, com o gênero poesia e o tema “A Cidade da
Franca”. 25.10.2005.
Título
honorífico de Cidadão Emérito, da Câmara Municipal de Franca, “em
reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à comunidade.” 19.05.2006.
Presidente Marcelo Manbrini.
Homenagem
póstuma da Câmara Municipal de Franca - Honra ao Mérito, “pela brilhante
colaboração no trabalho de revisão de texto da Lei Orgânica do Município no ano
de 1990.” 05.04.2010. Presidente Dr.Joaquim Pereira Ribeiro.
VII.
Obras publicadas.
Alfredo
Palermo escreveu várias obras:
Direito
Constitucional e Teoria Geral do Estado. Apostila para estudantes da Faculdade
de Direito de Franca. Franca: Editora Iguatemi Ltda, 1970.
Estudo
de Problemas Brasileiros. São Paulo: Lisa Livros Irradiantes S.A. 1.ed.1971. 2
ed. rev. e ampl. 1973. Obra destinada à
disciplina de Educação Moral e Cívica, então matéria obrigatória por força do
Dec. Lei n.º 869/69 para todos os
currículos escolares.
Estudos
Sociais. Brasil: Organização Social, Econômica e Política. Nível Superior. São
Paulo: Lisa, 1973.
Protesto
Cambial. Sustação e Cancelamento. São Paulo: Editora Pro-Livro S/A, 1976.
Franca.
Apontamentos de sua história, usos e costumes. Franca: Ed.COPGRAF – Editorial,
1980.
Sete
Apontamentos de Direito Público. Franca: Ed. Santa Rita Artes Gráficas Ltda,
1980.
Os
Direitos Sociais no Brasil. Síntese de uma política social. Franca: Ed.do
Departamento do Serviço Social. IHSS.
Unesp, 1984.
Letras
avulsas e ritmos proscritos. Franca: Fundação Municipal Mário de Andrade. 1 ed.,
1984, com 145 páginas.
Letras
avulsas e ritmos proscritos. Franca: Ribeirão Gráfica e Editora. 2 ed.
Ampliada, 2002, com 226 páginas.
Protesto
de Títulos. Sustação e Cancelamento. 4.ed. revista, em co-autoria com Carlos
Eduardo de C.Palermo. São Paulo: Lemos & Cruz, 2006.
Teses.
Doutorado:
Os direitos e garantias individuais e a Constituição do Império. USP, 1973.
Livre
docência: Moral e civismo na legislação escolar brasileira. UNESP, 1982.
Hinos.
Alfredo
Palermo é o autor da letra oficial do Hino da Franca, oficializado por Lei
Municipal de 1968.
Hino
da Franca. Letra.
Salve Franca, cidade querida,
Áurea gema do chão brasileiro,
Teu trabalho é uma luta renhida,
Sob a luz paternal do Cruzeiro.
Áurea gema do chão brasileiro,
Teu trabalho é uma luta renhida,
Sob a luz paternal do Cruzeiro.
No sacrário de mil oficinas,
Teu civismo é mais santo e mais puro,
Labutando é que a todos ensinas
O roteiro de luz do futuro.
Teu civismo é mais santo e mais puro,
Labutando é que a todos ensinas
O roteiro de luz do futuro.
Estribilho
Juventude, memoremos
A bravura ancestral,
E a pureza,
A beleza
Desta terra sem rival,
A bravura ancestral,
E a pureza,
A beleza
Desta terra sem rival,
Seresteiros, evoquemos
Um pretérito imortal,
Pois, na presente grandeza,
Fulge a grata certeza
De um porvir sem igual.
Um pretérito imortal,
Pois, na presente grandeza,
Fulge a grata certeza
De um porvir sem igual.
II
És florão da grandeza paulista,
Semeada em teu chão feiticeiro:
Teu café em aléias se avista,
Soberano, em seu reino altaneiro.
Semeada em teu chão feiticeiro:
Teu café em aléias se avista,
Soberano, em seu reino altaneiro.
Salve
Franca de tardes douradas,
Três Colinas amenas, ridentes:
Relembro tuas glórias passadas,
Outras glórias sonhamos presentes!
Três Colinas amenas, ridentes:
Relembro tuas glórias passadas,
Outras glórias sonhamos presentes!
Para
quem se interessar, há uma gravação disponível no YouTube :
É
também autor da letra do Hino da Padroeira de Franca: Nossa Senhora da
Conceição, em 08.12.2004, em homenagem aos 150 anos da declaração do dogma da
Imaculada Conceição.
Letra
do Hino da Padroeira.
Salve, salve Maria Imaculada,
Rainha etérea, mãe do Redentor.
Tua missão divina, consagrada,
Levou-me à gloria excelsa do Senhor!
Escolhida por Deus, predestinada,
Fez-te o Senhor fonte pura de amor.
Estrela, entre estrelas, mais amada !
Glória divina, pureza e louvor !
Refrão: Madona, dos francanos aclamada !
De bondade divina e esplendor!
Virgem de Nazaré, abençoada,
Aceita nosso canto e nosso amor!
Ainda
é o autor da letra do Hino do Agabê (antiga fábrica de calçados de propriedade de
seu amigo Hugo Betarello) .
VIII. Homenagens.
Projeto
de lei nº 540, de 2010, de autoria do Deputado Roberto Engler, denomina
“Professor Dr. Alfredo Palermo” à Escola Estadual do Jardim São Domingos em
Franca.
Projeto
de lei n.139/2014, de autoria do vereador Jépi Pereira , aprovado e
transformado em Lei n.8.160 de 30 de setembro de 2014, denomina Professor
Doutor Alfredo Palermo o Boulevard - Calçadão da Faculdade de Direito de
Franca, localizado na rua Nabi Haber, no trecho compreendido entre a Rua Major
Nicácio e a rua Comendador Nassim Mellem.
IX.
Curiosidades.
Alfredo
Palermo teve, sempre, uma vida rica em mil atividades. Seu interesse cultural
sempre o levou a novas descobertas, viagens e novas situações.
Fato
ocorrido quando ainda estudava no Colégio Champagnat de Franca, de irmãos
maristas, era sempre lembrado pelo próprio Alfredo Palermo. Numa determinada
época, alguns alunos fizeram greve. O reitor (irmão marista) da escola chamou
alguns alunos e perguntou quem eram os responsáveis. Como Alfredo jogava
futebol e era o dono da bola, foi lembrado por alguns. Os envolvidos, então,
foram suspensos e a falta anotada na caderneta escolar. Chegando em casa
Alfredo mostrou a caderneta ao seu pai João que, de imediato, lhe perguntou se
havia participado do ato que gerara a punição. Alfredo, que não havia
participado, negou. Seu pai, que confiava nele, colocou um revólver na cintura
e se dirigiu ao colégio. Lá, pediu para conversar com o reitor. Atendido,
colocou a arma na mesa e argumentou que o filho não havia participado do ato
que motivara a punição, não mentia e que a suspensão deveria ser anulada.
Imediatamente, conseguiu.
No
dia a dia do magistério colecionou fatos e circunstâncias que ilustravam
episódios cômicos em determinadas situações, como ficou bem difundido o
ocorrido em plena sala de aula, no tradicional EETC, em que um aluno brincalhão
arremessava sementes de milho enquanto o professor escrevia na lousa a lição do
dia. Fleumático, o professor virou-se e disse: -“alguém perdeu a sua ração...”
O EETC,
no “Dia do Professor” realizava sempre uma partida de futebol entre os
professores e os alunos, fato que acontecia no campo do Palmeirinhas ou no
Colégio Champagnat. Alfredo Palermo sempre fazia questão de participar e,
coincidência ou não, sempre na qualidade de centro avante marcava seu golzinho.
Ardoroso
adepto de viagens, Alfredo protagonizou várias aventuras. Na década de 50,
dirigindo seu Ford 51, com a esposa e os três filhos, dirigiu-se de Franca até
a Bahia, enfrentando estradas sofríveis de terra, com vários pneus furados,
pernoites em pousadas infestadas de percevejos e até a terrível falta de
dinheiro. Aí, a salvação foi o fato de ser rotariano. Alfredo procurou o
presidente de um clube, no interior da Bahia onde, por força dos reparos no
veículo, seu dinheiro havia acabado e lhe relatou o problema. Disse ao colega
rotariano que precisava de uma importância para concluir a viagem e que daria
ao mesmo, em garantia, sua bela máquina fotográfica Rolleiflex. Imediatamente, o fraterno rotariano avisou que
nada disso seria necessário e que, à noite, iria ao hotel levar o dinheiro. E
foi o que fez. Entregou-lhe um envelope
com o dinheiro necessário, não sem antes lhe avisar que a devolução do dinheiro
poderia ser feita quando do retorno à cidade de Franca. Alfredo, aproveitando
que a importância emprestada era suficiente e ainda sobrava um pouco, estendeu
sua viagem por mais alguns dias!
Também
gostava muito de passar alguns dias em Poços de Caldas, no período das férias escolares,
com a família, quase sempre no conhecido Hotel Minas Gerais, que possuía
funcionários muito atenciosos e refeições maravilhosas. Em uma ocasião, viagem
preparada, seu carro ficou na oficina e então não teve dúvida, aceitou a oferta
de utilização de um carro (Chevrolet ou Ford, 1939) de um parente e amigo, o
fazendeiro sr. Juca Vilela, pai da Lourdinha Vilela Bittar, esposa do Samir
(Nenê) Bittar, a qual também era uma das acompanhantes ao passeio.
Infelizmente, no meio do caminho, o motor do carro fundiu e o motorista precisou
de auxílio. Alfredo se socorreu do mano Nelson que tinha um belo Chevrolet
coupê, que lhe foi levado pelo cunhado Alcides Franchini, trazendo o avariado
de volta e a viagem continuou normal.
Alfredo
Palermo ainda fez mais uma viagem corajosa, saindo de Franca, com um Aero
Willis, 1964, dirigido por ele, levando quatro pessoas, juntamente com o genro
Torquato Celso Caleiro Carvalho, que com um Fusca levava Maria Teresa, sua
filha. Juntos se dirigiram numa longa viagem passando pelos estados de Paraná e
Santa Catarina, até o Rio Grande do Sul. Não é preciso dizer das dificuldades
da viagem, com estradas de terra, locais em que os carros tinham de se deslocar
dentro da carroceria de caminhões para atravessar rio, etc.
Protagonizou uma viagem épica que ocorreu uma semana antes da inauguração da cidade de Brasília.
Alfredo, que há poucos anos vivenciara, como deputado, o convívio com Juscelino
Kubistcheck e era entusiasmado pelo trabalho do mesmo, reuniu a família e mais
alguns amigos, num total de nove pessoas e, dirigindo uma Kombi (!) saiu de
Franca às 7h00, chegando a Brasília após 20 horas, gastando 90 litros de
gasolina a uma velocidade de 60 km. Da aventura surgiu mais uma crônica no
Comércio da Franca, onde mais elogiou a indústria automobilística do que a
própria existência da nova capital do País.
Outra
curiosidade: na década de 50, além dos inúmeros afazeres como professor,
advogado, deputado, Alfredo aceitou comprar uma granja de galinhas (!). A
granja, muito bem organizada, carecia do devido conhecimento técnico e, por
conseguinte, com receita menor do que as despesas, quase levou o mestre à
falência.
Nos
anos sombrios que se seguiram à Revolução de 1964, sob o governo dos militares,
qualquer opinião mais liberal era interpretada pela censura que dominava o País
como ato de conspiração de caráter “comunista”. Franca, como as demais cidades
do Brasil, também vivia tal clima. O jornal Comércio da Franca era, à época,
dirigido pelo prof. dr. Alfredo Henrique Costa, grande amigo de Alfredo Palermo.
Ambos se tratavam de “xará”. Costa era irrequieto, ativo e, como bom
jornalista, falava sempre verdades que não agradavam aos detentores do poder. Para
aquilo que contrariava suas atitudes, coloriam como ato de rebeldia e
conspiração. Assim, por diversas vezes, o prof. Henrique Costa era obrigado a
explicar aos censores seus comentários jornalísticos. E o inevitável ocorreu.
Certo dia, na calada da noite, policiais levaram de forma truculenta o prof. Henrique
Costa, que teve até seus óculos quebrados, e mais alguns outros francanos em
camburão para a cidade de Ribeirão Preto. Tendo tomado conhecimento, através de
familiares de Alfredo Henrique Costa, da prisão arbitrária, Alfredo Palermo se
dirigiu à Ribeirão Preto e obteve a liberação de Costa, tendo em conta as
explicações efetuadas e o fato de que o Coronel da PM, comandante à época, era
aluno no curso de Direito da Laudo de Camargo, onde o prof. Palermo lecionava.
Nas
décadas de 70 e 80, quando ainda lecionava na vizinha cidade de Ribeirão Preto,
as viagens aconteciam de forma especial, pois o mestre saía ao entardecer de
Franca, lecionava por quase três horas, era convidado pelos alunos para bate
papo no famoso Pinguim, o templo do chopp, e ainda retornava a Franca quase de
madrugada para, na manhã seguinte, iniciar outra maratona de aulas, sempre
feliz e otimista.
X.
Conclusão.
Estes
modestos subsídios biográficos visam, em última análise, contribuir para um
importante aspecto de uma cidade, qual seja a preservação de sua memória
histórica. Nesse diapasão, se as pessoas guardam conhecimento de suas raízes e,
automaticamente, conhecem a sua relevância, passam a valorizar tal conhecimento, transmitindo-o
para as gerações vindouras, evitando que seja olvidado. Por isso que se entende
que conhecer o nosso passado e preservar a memória e a cultura são requisitos
para as ações do presente. E também refletir sobre a memória é valorizar o
passado e seus legados, é ser sujeito da construção da história, consistindo,
em síntese, em um pressuposto elementar para o exercício da cidadania. Enfim, a
memória, como registro de experiências significativas, deve ser valorizada e
preservada, figurando como elemento fundamental da identidade cultural.
No
caso de Alfredo Palermo, é muito difícil uma pessoa conseguir frutos tão
generosos na área da educação naquela época (metade do século XX), tão escassa
de meios tecnológicos, numa pequena cidade do interior, o que justifica tais
relatos que só enriquecem sua trajetória para conhecimento das gerações futuras.
Além de bem dotado intelectualmente, teve a felicidade de viver a
experiência de ser oriundo de sólida formação familiar. À época, era comum o
conceito tão bem retratado nos livros jurídicos que entendiam que “dentre todas
as instituições, públicas ou privadas, a da família, reveste-se da maior
significação. Ela representa, sem contestação, o núcleo fundamental, a base
mais sólida em que repousa toda a organização social.” E mais: “realmente, no
seio desta originam-se e desenvolvem-se hábitos, inclinações e sentimentos que
decidirão um dia da sorte do indivíduo. No colo da mãe, assevera PLANIOL,
forma-se o que há de maior e de mais útil ao mundo, um homem honesto”
(MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil. Direito de família. 2º v.
13.ed. São Paulo: Saraiva, p.1).
Alfredo
Palermo não só vivenciou tal forma de vida, como pautou a de sua própria
família e dos cidadãos francanos, atuando sempre no sentido de ajudar, ensinar
e colaborar com os demais seres humanos, numa visão cristã sadia e produtiva.
Ninguém como ele soube cultivar a essência da família e o amor ao próximo, no
meio dos inúmeros afazeres cotidianos que enfrentava. E isto, certamente, ficará
na lembrança de todos aqueles que tiveram o privilégio de compartilhar seus
exemplos, além da herança cultural deixada para a cidade que tanto amou.
Na
galeria dos grandes personagens que construíram a cidade de Franca, sem dúvida,
Alfredo Palermo merece lugar de destaque.
domingo, 26 de março de 2017
O desalento pela situação atual.
O desalento pela situação atual.
O país está envolvido num furacão de más notícias, a maioria delas fruto das atuações nefandas dos políticos e uma pequena parte de responsabilidade de membros do Judiciário que atuam escandalosamente em confronto com a legislação e a população. Assim, Gilmar Mendes, na defesa da reforma política e na frequência a encontros palacianos, e a Justiça do Rio, que autorizou a esposa de Sergio Cabral uma prisão domiciliar a que não faz jus, nem moral, nem legalmente, reforçam tais argumentos.
Ao lado da ótima atuação da Polícia Federal e da Procuradoria na operação Lava Jato e em outras operações como Carne Fraca, assistimos atônitos deputados e senadores articularem proposta de reforma política indecente que visa proteger os interesses dos congressistas, tendo até colocado a raposa (relator petista Vicente Cândido) para cuidar do galinheiro (temas da reforma), com mudança para lista fechada, beneficiando os caciques dos partidos. E também a proposta de lei de abuso de autoridade para coibir e ameaçar a atuação de promotores e juízes, aumento de impostos, reforma da previdência mal elaborada e muito mais.
Por incrível que possa parecer, os políticos encontraram um defensor para suas ideias: Gilmar Mendes, ocupante do cargo de Presidente do Superior Tribunal Eleitoral e membro do STF, que, alheio à ética e à dignidade do cargo, manifesta sua opinião em concordância com os políticos e, ainda, despudoradamente, frequenta o ambiente palaciano em conchavos suspeitos.
Tudo isto, em pleno momento em que o atual presidente Michel Temer, dando as costas para o povo que o apoiou na substituição das más práticas da impichada Dilma, altera os rumos e passa a atuar de forma igual e perniciosa da política do toma lá dá cá, liberando milhões em verbas parlamentares em troco de apoio para aprovação de medidas que não são do interesse público.
Ora, é evidente que críticas aumentam e, assim como ocorreu em situações anteriores, novas manifestações foram programadas para evidenciar o descontentamento da população.
Lamentavelmente, as manifestações de hoje não refletiram a insatisfação que domina um círculo cada vez maior de brasileiros. O que se viu, infelizmente, foram poucas pessoas em todos os rincões do país, com manifestações chochas e sem vibração. E, não foi somente em nossa cidade de Franca, que reuniu público irrisório de pouco mais de 300 pessoas. Outras cidades do porte de Franca, como São Carlos, 150 pessoas, Araçatuba, 100, Uberaba, 100. Já, Ribeirão Preto, 1000, Brasília, 500, Rio de Janeiro, 2000, sinalizam um fracasso maior ainda. Segundo informou o jornal Folha, Michel Temer já assinalava participação "mediana" nas manifestações e o governo já estava tranquilo.
Como bem disse um leitor do Estadão hoje: "A improbidade institucionalizada pelo petismo conseguiu nivelar por baixo grande parte dos políticos brasileiros" (Sérgio S.de Oliveira de Monte Santo de Minas(MG), Forum dos leitores, p.A3).
Aliada à péssima qualidade do político brasileiro, a inércia da população, que assiste impassível aos desmandos, nos faz prever que dificilmente nos livraremos do mar de lama que predomina no ambiente. Acorda Brasil!
O país está envolvido num furacão de más notícias, a maioria delas fruto das atuações nefandas dos políticos e uma pequena parte de responsabilidade de membros do Judiciário que atuam escandalosamente em confronto com a legislação e a população. Assim, Gilmar Mendes, na defesa da reforma política e na frequência a encontros palacianos, e a Justiça do Rio, que autorizou a esposa de Sergio Cabral uma prisão domiciliar a que não faz jus, nem moral, nem legalmente, reforçam tais argumentos.
Ao lado da ótima atuação da Polícia Federal e da Procuradoria na operação Lava Jato e em outras operações como Carne Fraca, assistimos atônitos deputados e senadores articularem proposta de reforma política indecente que visa proteger os interesses dos congressistas, tendo até colocado a raposa (relator petista Vicente Cândido) para cuidar do galinheiro (temas da reforma), com mudança para lista fechada, beneficiando os caciques dos partidos. E também a proposta de lei de abuso de autoridade para coibir e ameaçar a atuação de promotores e juízes, aumento de impostos, reforma da previdência mal elaborada e muito mais.
Por incrível que possa parecer, os políticos encontraram um defensor para suas ideias: Gilmar Mendes, ocupante do cargo de Presidente do Superior Tribunal Eleitoral e membro do STF, que, alheio à ética e à dignidade do cargo, manifesta sua opinião em concordância com os políticos e, ainda, despudoradamente, frequenta o ambiente palaciano em conchavos suspeitos.
Tudo isto, em pleno momento em que o atual presidente Michel Temer, dando as costas para o povo que o apoiou na substituição das más práticas da impichada Dilma, altera os rumos e passa a atuar de forma igual e perniciosa da política do toma lá dá cá, liberando milhões em verbas parlamentares em troco de apoio para aprovação de medidas que não são do interesse público.
Ora, é evidente que críticas aumentam e, assim como ocorreu em situações anteriores, novas manifestações foram programadas para evidenciar o descontentamento da população.
Lamentavelmente, as manifestações de hoje não refletiram a insatisfação que domina um círculo cada vez maior de brasileiros. O que se viu, infelizmente, foram poucas pessoas em todos os rincões do país, com manifestações chochas e sem vibração. E, não foi somente em nossa cidade de Franca, que reuniu público irrisório de pouco mais de 300 pessoas. Outras cidades do porte de Franca, como São Carlos, 150 pessoas, Araçatuba, 100, Uberaba, 100. Já, Ribeirão Preto, 1000, Brasília, 500, Rio de Janeiro, 2000, sinalizam um fracasso maior ainda. Segundo informou o jornal Folha, Michel Temer já assinalava participação "mediana" nas manifestações e o governo já estava tranquilo.
Como bem disse um leitor do Estadão hoje: "A improbidade institucionalizada pelo petismo conseguiu nivelar por baixo grande parte dos políticos brasileiros" (Sérgio S.de Oliveira de Monte Santo de Minas(MG), Forum dos leitores, p.A3).
Aliada à péssima qualidade do político brasileiro, a inércia da população, que assiste impassível aos desmandos, nos faz prever que dificilmente nos livraremos do mar de lama que predomina no ambiente. Acorda Brasil!
domingo, 26 de fevereiro de 2017
Incompatibilidade entre política e moral.
Incompatibilidade entre política e moral.
Antigo professor de direito da PUC do Rio de Janeiro, em consagrada obra, já esclarecia que "o Estado encontra na legitimidade, a sua autoridade moral, e na força, a sua autoridade material. Essas autoridades se exercem através do governo. Na legitimidade haure o poder político a sua força moral, e viabilidade. Pode degenerar, por excesso, caindo na ditadura, ou por deficiência, afundando-se na desmoralização." (Sá Filho, Francisco. Relações entre os Poderes do Estado. Rio de Janeiro: Borsoi,1959. p.52).
Por outro lado, é sabido que o Maquiavelismo, derivado dos ensinamentos de Maquiavel, defende a separação da Política da Moral, entendendo neste diapasão que, em política, os fins justificam os meios.
Embora a política e a moral estendam-se pelo mesmo domínio comum, o da ação humana, Bobbio, Matteucci e Pasquino explicam "que se distinguem entre si em virtude de um princípio ou critério diverso de justificação e avaliação das respectivas ações, e que, em consequência disso, o que é obrigatório em moral, não se pode dizer que o seja em Política, e o que é lícito na Política, não se pode dizer que o seja em moral; pode haver ações morais que são impolíticas (ou apolíticas) e ações políticas que são imorais (ou amorais).(Dicionário de Política. v.2. 8.ed. Brasília: Ed. UnB, 1995. p.960/961).
Desse aparente conflito ético comentado pela doutrina, resultam, na prática, atos que os cidadãos comuns se recusam a entender e a aceitar.
No âmbito federal, o atual governo Temer, surgido de um impeachment polêmico, o que caracterizaria um enquadramento na citação acima de Francisco Sá Filho, está envolto, desde o início, em situações que escancaram o predomínio da política rasteira, baixa, em que seus principais ministros e auxiliares se vêm às voltas com escândalos ou citações na operação Lava Jato e em vias de serem enquadrados em processos relacionados à corrupção. Também, situações absurdas acontecem quando da necessidade de substituição de ministros, seja por suspeitas de ilícitos, seja por doenças, seja por mera substituição (Justiça), quando os indicados para substituição o são apenas pelo critério político e não técnico, situação aliás existente na maioria dos ministérios.
Tudo isto gera uma falta de confiança no governo, diminuindo a expectativa de sucesso no único setor técnico em atividade, qual seja, o ligado à economia.
Temer é o responsável pela insegurança, tendo por várias vezes sucumbido às exigências dos partidos em troca de apoio nas votações do Congresso, e no episódio de Osmar Serraglio, provocou a ira do peemedebista Fábio Ramalho (vice-presidente da Câmara) que anunciou que será voto contrário a partir de agora. A afirmação valeu um Editorial do Estadão deste domingo, que assinala: "Nestes tempos esquisitos, tipos como o deputado Ramalho deixam escancarado que o destino do País lhes é irrelevante. A única coisa que interessa é o atendimento das suas exigências, naquilo que em bom português política não é, e sim chantagem explícita." (Tempos muito esquisitos. Notas e informações. p.A3).
No âmbito municipal, em Franca, encontramos situações semelhantes. O novo prefeito, eleito segundo alguns, após o apoio explícito de experiente técnico das finanças de governos passados, além do empenho de outros candidatos minoritários no segundo turno, tudo graças a trocas políticas usuais, recentemente expôs também a incompatibilidade entre política e moral. As manchetes das mídias informaram que o desrespeito aos acordos e métodos de trabalho possibilitaram a saída de vários dos elementos que apoiavam e faziam parte do novo governo, comprovando que o maquiavelismo surgido há longo tempo, por incrível que pareça, ainda domina o pensamento dos políticos. Ou seja, a incompatibilidade entre política e moral é irreversível.
A tristeza que fica: os eleitores, mais uma vez se sentem frustrados.
domingo, 8 de janeiro de 2017
Caos carcerário expõe falência do Judiciário e demais instituições.
Caos carcerário expõe falência do Judiciário e demais instituições.
Nos últimos dias o Brasil ficou apavorado com as notícias das ocorrências de massacres em penitenciárias de Manaus e Boa Vista. As chacinas de presos são atribuídas às lutas lideradas por duas grandes facções de criminosos: PCC e CV pelo domínio do mercado de drogas no País. A facção paulista (PCC) controla o tráfico na fronteira com o Paraguai e o Comando Vermelho (CV) toma conta do tráfico na fronteira com a Bolívia. Agregadas às duas existem outras 25 facções criminosas ligadas a uma e a outra das grandes, coincidentemente, o mesmo número de Estados brasileiros. A reação das autoridades, sejam estaduais ou a federal, são medíocres, cada qual empurrando as causas para fatores outros que não as próprias e exclusivas responsabilidades. Isto para não dizer sobre a infeliz declaração do presidente Michel Temer sobre os fatos, evidenciando, mais uma vez, sua fraqueza e incapacidade para o cargo ao qual foi erigido por força do impeachment, não por força da vontade do povo. Ora, pela Constituição, a responsabilidade pelas gestões das prisões é dos Estados, ficando para a União a função de coordenação de um pacto para implementação de medidas conjuntas.
No plano teórico as coisas seriam fáceis. Na prática, todos nós sabemos, de longa data, que nenhum dos atores, União e Estados, trabalha corretamente, aplicando-se rotineiramente medidas paliativas. Ontem, num programa da GloboNews intitulado Painel, apresentado por William Waack, com a presença do ex-presidente do STF. Ayres Brito, do professor Oscar Vilhena e do cientista político Roberto Romano, discutiu-se exatamente a falência do sistema carcerário brasileiro, comentando-se as causas da atual situação aflitiva. E tanto o apresentador como Vilhena e Romano acentuaram que duas grandes evidências fazem parte das diversas causas: a inépcia do Judiciário e do Ministério Público, o primeiro mantendo presas pessoas que nem julgadas foram e o segundo que preocupa-se somente em denunciar, deixando de, em seguida, fiscalizar a situação das prisões. E o que é o pior: Romano afirmou categoricamente, apesar do protesto de Ayres Brito, que há muita corrupção de juízes e desembargadores, o que aumenta o problema.
Em 1971, Roberto Lyra, um dos maiores penalistas brasileiros, que tem obras primas do Direito Penal, inclusive na área prisional, das execuções penais, sendo até nome de presídio atualmente, foi um crítico mordaz das prisões, afirmando sobre seu conceito de prisão: “É a ruptura, de oficio, do chamado contrato social. O preso passa, compulsoriamente, a vegetar, noutra sociedade. Prisão é a morte moral, morte cívica, morte civil, morte mesmo pela consumição da vida... (Novo Direito Penal. V. III. Rio: Borsoi. 1971. p.108).
Também, embora haja uma Lei de Execuções Penais boa, a aplicação deixa a desejar, por falha do Judiciário, e, na prática, acontecem vários atentados à dignidade humana. Neste sentido, Lyra, naquela obra de 46 anos também já acrescentava: "Seja qual for o fim atribuído à pena, a prisão, é contraproducente. Nem intimida, nem regenera. Embrutece e perverte. Insensibiliza ou revolta. Descaracteriza e desambienta. Priva de funções. Inverte a natureza. Gera cínicos ou hipócritas. A prisão justifica a oposição do preso à lei e à autoridade, cuja imagem está nos atos de seus órgãos e agentes. Aprende-se a iludir a lei depois de violá-la." (idem, p.111).
É um fato cada vez mais atual. Além do sistema carcerário não produzir bons resultados para a sociedade, como é de se esperar, o que não podemos como cidadãos aceitar é a inoperância das instituições. O Executivo fecha os olhos, como se o problema não fosse seu. O Judiciário, a quem cabe julgar as pessoas, não o faz dentro dos padrões constitucionais, mantendo presos cidadãos sem julgamentos, permitindo convivência de detentos menos perigosos com os de maior periculosidade, colaborando com uma verdadeira universidade do crime, além de não investigar e punir aqueles magistrados reconhecidamente corruptos. Também, saliente-se a responsabilidade do Ministério Público que abre mão de uma de suas obrigações, qual seja a de fiscalizar os presídios para denunciar irregularidades e ilegalidades cometidas contra os presidiários, por agentes, policiais, membros do Judiciário, etc.
Mudanças devem ocorrer e de forma urgente. Além das mortes revoltantes, há que se lembrar que o Poder Público é responsável pela integridade física e moral do presidiário, o que não vem ocorrendo, em visível afronta à decisão de repercussão geral do STF, no RE 841.526.
O irrestrito respeito à integridade física e moral do preso é corolário direto do princípio geral da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88), fundamento da República Federativa do Brasil. A condição de preso, por evidente, não retira da pessoa sua condição de ser humano. O próprio art. 3º da Lei de Execução Penal nos adverte que ao condenado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei.
Afinal, foram 90 mortes em uma semana de janeiro, apenas nos presídios de Manaus e Boa Vista, criando uma situação caótica e expondo ao mundo inteiro a incapacidade dos órgãos públicos em gerir as crises nos presídios, os quais estão nas mãos das facções criminosas que humilham Executivo, Ministério Público e Judiciário, incapazes de manter a segurança pública.
Nos últimos dias o Brasil ficou apavorado com as notícias das ocorrências de massacres em penitenciárias de Manaus e Boa Vista. As chacinas de presos são atribuídas às lutas lideradas por duas grandes facções de criminosos: PCC e CV pelo domínio do mercado de drogas no País. A facção paulista (PCC) controla o tráfico na fronteira com o Paraguai e o Comando Vermelho (CV) toma conta do tráfico na fronteira com a Bolívia. Agregadas às duas existem outras 25 facções criminosas ligadas a uma e a outra das grandes, coincidentemente, o mesmo número de Estados brasileiros. A reação das autoridades, sejam estaduais ou a federal, são medíocres, cada qual empurrando as causas para fatores outros que não as próprias e exclusivas responsabilidades. Isto para não dizer sobre a infeliz declaração do presidente Michel Temer sobre os fatos, evidenciando, mais uma vez, sua fraqueza e incapacidade para o cargo ao qual foi erigido por força do impeachment, não por força da vontade do povo. Ora, pela Constituição, a responsabilidade pelas gestões das prisões é dos Estados, ficando para a União a função de coordenação de um pacto para implementação de medidas conjuntas.
No plano teórico as coisas seriam fáceis. Na prática, todos nós sabemos, de longa data, que nenhum dos atores, União e Estados, trabalha corretamente, aplicando-se rotineiramente medidas paliativas. Ontem, num programa da GloboNews intitulado Painel, apresentado por William Waack, com a presença do ex-presidente do STF. Ayres Brito, do professor Oscar Vilhena e do cientista político Roberto Romano, discutiu-se exatamente a falência do sistema carcerário brasileiro, comentando-se as causas da atual situação aflitiva. E tanto o apresentador como Vilhena e Romano acentuaram que duas grandes evidências fazem parte das diversas causas: a inépcia do Judiciário e do Ministério Público, o primeiro mantendo presas pessoas que nem julgadas foram e o segundo que preocupa-se somente em denunciar, deixando de, em seguida, fiscalizar a situação das prisões. E o que é o pior: Romano afirmou categoricamente, apesar do protesto de Ayres Brito, que há muita corrupção de juízes e desembargadores, o que aumenta o problema.
Em 1971, Roberto Lyra, um dos maiores penalistas brasileiros, que tem obras primas do Direito Penal, inclusive na área prisional, das execuções penais, sendo até nome de presídio atualmente, foi um crítico mordaz das prisões, afirmando sobre seu conceito de prisão: “É a ruptura, de oficio, do chamado contrato social. O preso passa, compulsoriamente, a vegetar, noutra sociedade. Prisão é a morte moral, morte cívica, morte civil, morte mesmo pela consumição da vida... (Novo Direito Penal. V. III. Rio: Borsoi. 1971. p.108).
Também, embora haja uma Lei de Execuções Penais boa, a aplicação deixa a desejar, por falha do Judiciário, e, na prática, acontecem vários atentados à dignidade humana. Neste sentido, Lyra, naquela obra de 46 anos também já acrescentava: "Seja qual for o fim atribuído à pena, a prisão, é contraproducente. Nem intimida, nem regenera. Embrutece e perverte. Insensibiliza ou revolta. Descaracteriza e desambienta. Priva de funções. Inverte a natureza. Gera cínicos ou hipócritas. A prisão justifica a oposição do preso à lei e à autoridade, cuja imagem está nos atos de seus órgãos e agentes. Aprende-se a iludir a lei depois de violá-la." (idem, p.111).
É um fato cada vez mais atual. Além do sistema carcerário não produzir bons resultados para a sociedade, como é de se esperar, o que não podemos como cidadãos aceitar é a inoperância das instituições. O Executivo fecha os olhos, como se o problema não fosse seu. O Judiciário, a quem cabe julgar as pessoas, não o faz dentro dos padrões constitucionais, mantendo presos cidadãos sem julgamentos, permitindo convivência de detentos menos perigosos com os de maior periculosidade, colaborando com uma verdadeira universidade do crime, além de não investigar e punir aqueles magistrados reconhecidamente corruptos. Também, saliente-se a responsabilidade do Ministério Público que abre mão de uma de suas obrigações, qual seja a de fiscalizar os presídios para denunciar irregularidades e ilegalidades cometidas contra os presidiários, por agentes, policiais, membros do Judiciário, etc.
Mudanças devem ocorrer e de forma urgente. Além das mortes revoltantes, há que se lembrar que o Poder Público é responsável pela integridade física e moral do presidiário, o que não vem ocorrendo, em visível afronta à decisão de repercussão geral do STF, no RE 841.526.
O irrestrito respeito à integridade física e moral do preso é corolário direto do princípio geral da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88), fundamento da República Federativa do Brasil. A condição de preso, por evidente, não retira da pessoa sua condição de ser humano. O próprio art. 3º da Lei de Execução Penal nos adverte que ao condenado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei.
Afinal, foram 90 mortes em uma semana de janeiro, apenas nos presídios de Manaus e Boa Vista, criando uma situação caótica e expondo ao mundo inteiro a incapacidade dos órgãos públicos em gerir as crises nos presídios, os quais estão nas mãos das facções criminosas que humilham Executivo, Ministério Público e Judiciário, incapazes de manter a segurança pública.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Renan, o Czar brasileiro e o descrédito quanto aos Poderes.
Renan, o Czar
brasileiro e o descrédito quanto aos Poderes.
O dia 7 de dezembro de 2016 vai ficar marcado
na história do Brasil, como o auge do descrédito oficial da mais alta Corte do
Judiciário, o STF, bem como da desmoralização dos demais Poderes, pela vitória
de Renan Calheiros, ao ter acolhida sua rebeldia a uma determinação judicial,
via liminar monocrática, de um ministro do STF, aceitando em parte seus
argumentos, além de eliminar a eficácia da intimação efetuada através da figura
do oficial de justiça, tendo em conta a opção por não punir quem se recusa a
recebê-la, reiteradamente. Recorde-se que o ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal),
decidiu afastar Renan Calheiros (PMDB-AL) da presidência do Senado.
A
decisão era em caráter liminar, em cognição de caráter superficial e
provisório. Mello acatou pedido da Rede Sustentabilidade, feito para
que Renan fosse afastado do cargo depois que virou réu, na última quinta (1º),
pelo crime de peculato. Tal decisão forçou a manifestação do Plenário do
STF que, reunido na quarta-feira (07), resolveu abandonar a lei e julgar
através do "jeitinho" brasileiro, contemporizando a crise
institucional. Assim o fez acatando diversas sugestões de políticos influentes
como FHC, Aécio, Sarney, do próprio vice-presidente do Senado, priorizando uma
decisão salomônica em que, apesar de decidir que Renan não pode, em virtude de sua
situação de réu, suceder o Presidente, em eventual necessidade, mas, por outro
lado, pode continuar exercendo a presidência do Senado. A recusa em receber a
intimação, que poderia, em situação normal, acarretar até prisão por
desobediência, foi olvidada, fato que, a partir de agora, pode possibilitar que
qualquer cidadão, quando procurado por oficial de Justiça, para qualquer
comunicação ou intimação, poderá virar as costas ou simplesmente ignorá-lo.
Afinal, trata-se de situação acobertada pelo próprio STF.
Como assinalou a jornalista Vera Magalhães, do Estadão,
em artigo intitulado "STF dilapidou a própria credibilidade", de
08.12.16: "O Supremo Tribunal Federal produziu deliberadamente o segundo
“jeitinho” em menos de seis meses para responder a uma crise que não era
constitucional, mas política. Ao agir dessa maneira, a corte máxima do país se
apequena, e dá sinais de que está disposta a abrir mão da máxima segundo a
qual, no arranjo institucional republicano, cabe ao Judiciário falar por
último."
Vera, mencionou dois "jeitinhos", porque
o primeiro foi aquele ocorrido no processo de cassação de Dilma em que Lewandowski
criou um meio de evitar a perda dos direitos políticos de Dilma, à revelia da
Constituição, mas que, até agora, o STF silenciou, sugerindo concordância.
A dinâmica da existência dos três Poderes, na
democracia, fórmula criada por Montesquieu e aperfeiçoada por seguidores, teve
em Kant, segundo o jurista Paulo Bonavides (Ciência Política. 22 ed. São Paulo:
Malheiros Editores, 2015. p.151) o estabelecimento da criação de "um
silogismo da ordem estatal em que o legislativo se apresenta como a premissa
maior, o executivo, a premissa menor, e o judiciário, a conclusão. Insistindo
na 'majestade' dos três poderes, sempre postos numa alta esfera de valoração
ética, Kant afirma que o legislativo é 'irrepreensível', o executivo
'irresistível' e o judiciário 'inapelável'.”
Neste sentido, coincidindo com as influências
descritas no episódio Renan, com relação à importância de um Judiciário imune,
é importante a lição de Francisco Sá Filho (Relação entre os poderes do estado.
Rio: Borsoi ed., 1959. p.63): "por fim, de todos os gêneros de corrupção,
o da magistratura é o mais odioso, porque representa um dos meios irreparáveis
de proteção aos ricos em prejuízo dos pobres. Ainda quando imunes do mal, os
juízes, muitas vezes sofrem sugestões do espírito conservador, que é dominado
pelo regime econômico reinante”.
É verdade, como concluiu Vera Magalhães no artigo
citado,"o STF, com essas duas decisões, relativizou seu peso. Com isso,
chega desgastado, não só diante dos demais Poderes, mas da sociedade, para
enfrentar o que terá pela frente: vários processos contra políticos envolvidos
na Lava Jato, que andam a passos de tartaruga e cujo fim, teme-se, seja
igualmente negociado em conversas de gabinetes e fora da Constituição."
Lamentavelmente, o STF possibilitou que um cidadão com 12
processos em andamento, um em que já é réu, todos naquela Corte, tornar-se, com
tal injusta e ilegal decisão, o novo Czar do Brasil, ou imperador.
Lembre-se que, o primeiro Czar russo,
Ivan IV, como diversas fontes históricas descrevem, tinha personalidade complexa,
sendo também descrito como inteligente e piedoso, com acessos de raiva e surtos
esporádicos de transtornos mentais. Num desses ataques
assassinou seu herdeiro ao trono. Ou seja, se não em tudo, em algo, semelhante
como nosso primeiro Czar.
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