domingo, 22 de março de 2015

Corrupção pode ser extinta ou é um mal inerente à política?

Corrupção pode ser extinta ou é um mal inerente à política?




A Operação Lava Jato aguçou a luta contra a corrupção, situação mais comentada nos últimos tempos. Na verdade, dizem os estudiosos, a Inglaterra demorou 300 anos para conter a corrupção e nós ficamos a pensar quanto tempo o Brasil, que sofre com a mesma há 514 anos, esperará para ficar na mesma posição que a Inglaterra chegou.
Como salientou o jornal The Economist, em artigo intitulado "O resgate pela democracia", traduzido e publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", de 15.03, p.B 8: "A resistência à corrupção na América Latina tem uma história longa e, em grande parte, inútil. Antônio de Ulloa, um capitão naval, tentou e não conseguiu erradicar a fraude numa mina de mercúrio nos anos 1750 na cidade andina de Huancavelica. Líderes corruptos foram depostos na era democrática sem muito efeito sobre a própria corrupção. As fulminações de Hugo Chávez contra ela na Venezuela ajudaram sua ascensão ao poder; no seu regime 'bolivariano' ela piorou. A prisão de Alberto Fujimori, em cujo governo o Estado peruano se tornou uma empresa criminosa, não purificou o país."
No próprio Brasil, confirmando que a corrupção servia há muito tempo para a lavagem do dinheiro do crime organizado, mesmo durante a vigência dos anos duros da ditadura militar (1964-84), como salienta Alba Zaluar (Para não dizer que não falei de samba: os enigmas da violência no Brasil, em História da Vida Privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.v.4. p.271):  "ao contrário do que aconteceu em outros países da América Latina, o Congresso não ficou permanentemente fechado, e o governo continuou a usar a corrupção  adicionada ao clientelismo como estratégia para controlar os políticos que corroboravam as decisões dos militares, o que provocou atitudes fortemente anticlientelistas e antiestatais nos movimentos sociais ligados à oposição, além de ter facilitado o aparecimento das redes e dos circuitos da lavagem do dinheiro do crime organizado no período da redemocratização."
Ou seja, antes era de uma forma, havendo conluio entre o governo e políticos. Agora, de outra forma, a corrupção é usada para os objetivos espúrios dos políticos mancomunados com as empreiteiras.
Verdadeiramente, a situação é calamitosa em todo o mundo, chegando o Papa Francisco, neste sábado, a afirmar em Nápoles: "Quanta corrupção há no mundo(...). A corrupção é suja e a sociedade corrupta é uma porcaria. Um cidadão que deixa que a corrupção o invada não é cristão!".
Para o Papa, ainda, "a corrupção é suja e uma sociedade corrupta fede".
Por outro lado, o povo brasileiro tem reagido às constantes revelações da Operação Lava Jato e as manifestações populares que já ocorreram e que ainda vão ocorrer, mantêm um prenúncio no horizonte de que há esperança de uma mudança.
Temos que confiar em pessoas como o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo processo em curso no Paraná e que vem dirigindo o processo da Operação Lava Jato que, por ocasião do recebimento do título de Personalidade do Ano, no dia 18.03, assim afirmou: "Por mais plural que seja a democracia, existe um consenso. Todos são contra a corrupção e todos concordam, seja aqueles à esquerda, seja à direita, que a corrupção, quando identificada e provada, deve ser punida. O Brasil já enfrentou problemas maiores. A corrupção é mais um. Não vejo nenhum problema como insuperável."
Que assim seja.



domingo, 15 de março de 2015

Festa democrática no protesto contra Dilma.



Festa democrática no protesto contra Dilma.


O dia 15 de março vai para a história do Brasil como mais uma forte prova democrática da união do povo brasileiro protestando e exigindo mudanças, quando se sente espoliado ou contrariado por governos que não representam a vontade popular, ou quando, como agora, se vê nas mãos de políticos corruptos que roubaram os cofres da Petrobrás e vêm afundando o país no caos econômico que se encontra.
Em todo o país, desde cedo, com grandes concentrações e passeatas em todos os Estados e nas maiores cidades, até o auge, na capital paulista, com mais de um milhão de manifestantes, o que se viu foi uma histórica demonstração cívica de que o povo não admite mais ser lesado. E, é fácil perceber que é só o começo de uma longa jornada de protestos que fatalmente virão.
Em todos os lugares há unanimidade de opiniões, com todos pedindo a saída de Dilma e dos ladrões que foram descobertos através das investigações da Petrobrás, mas que estão infiltrados em todos os setores públicos e que após os governos petistas tiveram um crescimento avassalador.
Muitos, e há até grandes personagens da oposição, são contrários ao impeachment por não verem clima ou provas concretas para tal, tendo até um jornal digno como o Estadão, em seu editorial deste domingo, salientado "Tudo tem sua hora, e esta não é a do impeachment". Enganam-se, pois, como se sabe, qualquer cidadão, e não só deputados, no gozo de seus direitos políticos, é parte legítima para oferecer a acusação à Câmara dos Deputados sobre crime de responsabilidade do presidente da República. Crimes de responsabilidade "são infrações político-administrativas definidas na legislação federal, cometidas no desempenho da função, que atentam contra a existência da União, o livre exercício dos Poderes do Estado, a segurança interna do País, a probidade da Administração, a lei orçamentária, o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais e o cumprimento das leis e decisões judiciais." (MORAES, Alexandre de. Direito constitucional. Atlas: São Paulo, 2013. p.430). Acresça-se que a Lei Maior prevê, no art.85, rol meramente exemplificativo dos crimes de responsabilidade, já que o presidente poderá ser responsabilizado por qualquer ato atentatório à Constituição. E, é importante ajuntar que a Lei n.8.429/92, que trata das sanções por atos de improbidade administrativa, em seu art. 5º, é clara quanto à ação do agente público: ação ou omissão, culposa ou dolosa, em lesão ao patrimônio público. No caso da Petrobrás, Dilma agiu, pelo menos, com omissão culposa ao não evitar os danos causados por seus agentes.
Portanto, subsídio legal para impeachment há. Quem decidirá pela medida extrema é o Congresso, iniciando-se o processo na Câmara e o julgamento no Senado. Sendo decidido pelo Congresso, a decisão é política, mas, quando há clamor público intenso, como o que já se prenuncia, não há a impossibilidade de se barrar o objetivo desejado pela maioria da população. Embora a história e a tradição republicana nacional registrem uma certa ojeriza pelo instituto do impeachment, recentemente, tal medida se impôs e a derrubada de Collor só foi possível pela força do povo. Assim, nada impede que tal fato se repita. Como ensina o eminente constitucionalista Paulino Jacques: "é um sistema de repressão de abusos, imprescindível à existência e à segurança dos governos democráticos". (Curso de direito constitucional. Forense: Rio de Janeiro, 1964. p.173).
Para aqueles que são contra a aplicação do impeachment e que salientam seu caráter de decisão política, nunca é demais lembrar os riscos de se olvidar os mandamentos jurídicos, como lembra a jurista Maria Helena Diniz: "a solução meramente política de problemas jurídicos pode ser insatisfatória e poderá dar lugar a situações indesejáveis, que, embora possam corresponder teoricamente ao texto constitucional, ficam asfixiadas pelas limitações circunstanciais, fáticas e valorativas, causando danos de difícil reparação."(Norma constitucional e seus efeitos. Saraiva: São Paulo, 1997. p.70).
E, justamente, não é isso que almejamos para nosso país. Diante dos fatos, o que se deseja é que o povo seja ouvido e atendido.







sábado, 24 de janeiro de 2015

Tecnofobia

Tecnofobia.


Há pouco, mandei realizar uma revisão e limpeza de minha antiga máquina de datilografia, usada por mais de 30 anos no exercício da advocacia. Isto sem saber o motivo, pois trata-se de uma peça em extinção, ou seja, está em completo desuso, após a era do computador. Resistiu, heroicamente, até que alguém resolveu determinar a prevalência da era eletrônica nos fóruns e a máquina foi relegada a peça de museu.
A existência dos primeiros videogames que acompanhavam minha rotina de pai me inseriu no grupo dos tecnófobos, e o surgimento dos computadores e celulares veio confirmar que, embora não tenha nenhum orgulho disso, minha dificuldade em lidar com tecnologia é um mal inexorável.
Minhas habilidades manuais sempre foram pequenas, sendo que a elaboração de uma pipa , de um carrinho de rolemã ou um aeromodelo, diversões próprias de minha infância, transformavam-se em pesadelos angustiantes.
Já na idade adulta, apegado à tradicional máquina de datilografia, tive dificuldades de trocar minha amada Triumph pelos "modernos" computadores e notebooks. Que dizer do telefone fixo, para o idolatrado celular!
E, não fica por aí. Gosto de ouvir, pelo rádio, jogos de futebol, quando não televisionados diretamente. E, mania antiga, não abro mão dos radinhos portáteis movidos a pilhas. Recentemente, adquiri um novo, para servir-me nos campeonatos que se iniciam brevemente.
Daí, quando leio uma notícia de que "antes confinados ao universo do esporte de alto rendimento, aparelhos capazes de medir batimentos cardíacos, a velocidade dos passos e os deslocamentos do usuário estão se tornando cada vez mais populares ao serem abraçados por marcas como Sony, Samsung, Motorola e LG, nas ondas dos chamados dispositivos vestíveis", fato agora seguido pela gigante Apple, que prepara o lançamento do "Apple Watch", entendo que minhas ondas de tecnofobia só tendem a aumentarem.
O uso multifacetado dos novos relógios não ficará restrito às atividades físicas ou médicas, mas estender-se-á a outros rastreamentos das atividades humanas. Com um relógio ou uma pulseira, poder-se-á analisar o que o aluno faz o dia inteiro, ou até mesmo um empregado de uma empresa, ou seja, a privacidade e a segurança estarão nas mãos dos detentores da tecnologia.
Os avanços da humanidade caminham mais rápidos do que nossa vã imaginação pode esperar e, aqueles como eu, tecnófobos de telefones celulares, computadores e outras parafernálias eletrônicas, estarão em maus lençóis.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Museus públicos e abandono.

Museus públicos e abandono.


Quem viaja ao exterior sente o cuidado extremado que as nações destinam aos seus museus. Particularmente, pude constatar em Washington, D.C., nos EUA, um sem número deles em que se percebe o carinho da população e dos dirigentes, sejam os museus públicos ou privados, onde a organização reflete a importância que se deve dar a tais elementos fundamentais da cultura.
Paris, na França, Roma, Florença, Milão, na Itália, também possuem museus que guardam dados e peças históricas monumentais que proporcionam a quem os frequenta um apanhado visual do desenvolvimento gradual da humanidade. Todos eles, sem exceção, impecáveis.
É por isto que Denise C. Stuart (STUART, Denise C. Museus: emoção e aprendizagem. Revista de História.com.br. Disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/educacao/museus-emocao-e-aprendizagem. Acesso em 17 jan. 2015) afirma sobre a importância dos museus:


"Ao contrário do que acontece na escola, onde a formação se dá pela frequência diária às aulas, uma visita ao museu pode ter tempos diferenciados e acontecer paulatinamente ao longo da vida, em diferentes ocasiões, independentemente de idade e grau de conhecimento. Além disso, a experiência dos visitantes será sempre distinta de outras: cada um vai observar, compreender e absorver o que está exposto ou escrito de maneira diferente. O aprendizado no museu tem, enfim, um caráter único, sempre condicionado à experiência individual do visitante e das circunstâncias em que ocorreu a visita, na medida em que as percepções variam segundo o contexto da visitação."


E mais:


"Diversas histórias estão ali prontas para serem narradas: histórias de outras épocas evocando povos e civilizações antigas, com suas maneiras de viver e pensar; e do mundo contemporâneo do qual fazemos parte, com suas novas descobertas, formas de expressão artística, cultural etc. São espaços simbólicos, muitas vezes mágicos e surpreendentes, capazes de oferecer uma experiência ao mesmo tempo educativa e divertida."


No exterior, há filas enormes para visitas aos museus. E, a grande maioria deles, cobra para o acesso. São bem administrados, possuem inúmeros funcionários e a segurança fica por conta da polícia local, do estado e, em alguns, até pelo exército, como na Itália.
Pois bem, todo este prólogo é para manifestar minha revolta com três notícias da mídia nesta semana. A primeira, dando conta que o Museu Nacional iria fechar em virtude da "falta de verbas para serviços de limpeza e vigilância". Trata-se do mais antigo museu do Brasil, especializado em história natural, sendo o maior da América Latina na área. É mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A segunda, informando que uma Fundação para a Memória Republicana Brasileira, no Maranhão, criada por José Sarney para guardar 40 mil itens pessoais relacionados a sua vida pública e transferidos para o poder público por sua filha Roseana Sarney, fazendo com que o mesmo  gastasse R$8 milhões entre 2012 e 2014, estava se tornando uma dor de cabeça para o atual governador Flávio Dino, que não sabe o que fazer com tamanho desperdício da instituição-museu que está num prédio colonial de 1654 no centro histórico de São Luís. O prédio conta com 48 funcionários comissionados (indicados) que consomem verba mensal de R$174 mil mensais. Todo este desperdício de dinheiro é lamentável, pois ao invés de promover o culto de um político que não deixará boas lembranças, transfere verbas que poderiam suportar museus verdadeiramente interessantes para a cultura maranhense e nacional.
A última notícia é local, da cidade de Franca, onde seu Museu Histórico, que funciona num dos prédios mais antigos e significativos, possuindo grande acervo de dados e objetos da história francana, está em total abandono, com goteiras em toda sua construção, não havendo perspectiva de qualquer atitude para corrigir tal fato por parte do poder público. E todo mundo sabe que o órgão responsável pelo museu é a Feac que possui verbas para tal, mas prefere destiná-las a despesas menos importantes como as destinadas ao time de basquete que, por sinal, é privado. E, ainda que a Feac se abstenha de suas funções primordiais, o prefeito deveria abraçar a defesa do Museu, mesmo que tal ação não traga dividendo eleitoral futuro. Afinal, é a história da cidade que está em jogo. Talvez seja esperar muito de um político que, iniciando a segunda metade de seu mandato, nada fez. É bom lembrar que este político caiu na cadeira de prefeito graças ao ex-prefeito Sidnei, outro que nunca cuidou da manutenção de museus e bens públicos, preferindo obras que satisfizessem seu ego. Pobre Franca!



domingo, 16 de novembro de 2014

Ombudsman da Folha explica demissões. As fatias partidárias da corrupção.


Ombudsman da Folha explica demissões.


Na semana passada, no auge das notícias sobre corrupção, e poucos dias após as eleições, o jornal Folha de S.Paulo, sem quaisquer explicações, demitiu dois de seus mais destacados jornalistas: Fernando Rodrigues e Eliane Cantanhêde, o primeiro com 27 anos de casa e a segunda com 17. Não fosse o brilho dos mesmos, o que causou estranheza maior foi o fato de que durante o pleito os jornalistas manifestaram comentários contrários aos interesses do Planalto, embora até então a equipe de jornalistas se dividisse naqueles que atacavam Dilma e nos que a endeusavam como Jânio de Freitas e Rogério Cézar de Cerqueira Leite, ambos do Conselho Editorial.
Ora, a Folha sempre se pautou pela liberdade de manifestação dada a seus jornalistas, fato que lhe grangeou os milhares de leitores que a seguem há décadas. Para completar, no domingo após as demissões, não foi publicada a coluna Ombudsman, sem qualquer explicação.
Muitos se indignaram, inclusive este que lhes escreve. Assim, como os outros, manifestei meu descontentamento, como leitor, diretamente à Ombusdman, Vera Guimarães Martins, a qual gentilmente me respondeu, via e-mail, no dia 12.11, ajuntando que, neste domingo, daria as explicações que faltaram no domingo passado, quando a coluna não foi publicada.
Pois bem, hoje, a explicação foi dada à Ombudsman, que a repassou. E, quem leu, percebe que, embora a alegação da empresa jornalística tenha sido de que as demissões se deram pela conjuntura econômica, remanejamento de profissionais, etc., não convenceu a ninguém, nem mesmo à Ombusdsman que assim se expressou: "Foram muitas dezenas de mensagens, a maioria movidas pelo mesmo espírito: espanto com o fato, indignação com a forma e revolta com o descaso. A demissão de Fernando Rodrigues e Eliane Cantanhêde foi uma operação desastrosa, não só pela perda que impôs aos leitores, mas principalmente pela falta de sensibilidade na condução do processo. O jornal ignorou aquele a quem serve - o leitor."
É lamentável a atitude da Folha de S.Paulo. A história jornalística da empresa não merecia esta mácula. O ato se assemelhou ao daqueles periódicos interioranos onde o dono do jornal só publica aquilo que lhe convém, censura o que não lhe interessa e trata seus colunistas como mero fantoches.


As fatias partidárias da corrupção.


Neste final de semana, mais uma vez a Polícia Federal mostrou-se como o grande órgão público que ainda vem executando com galhardia sua função constitucional: prendeu duas dezenas de empresários ligados à Operação Lava-Jato, em continuidade à delação premiada de Yosseff e Paulo Costa diretamente ligados ao maior caso de corrupção na história do Brasil.
Divulgou-se, com segurança, aquilo que se suspeitava: as empreiteiras fatiavam propinas divididas entre os partidos PT, PMDB e PP, cada qual recebendo de uma área específica nas concorrências da Petrobrás.
Assim, o próximo passo, será conhecer e prender os políticos ligados àqueles partidos e que se beneficiaram de valores de toda a sociedade brasileira. Está na hora de se dar um basta ao que o jornal Folha de S.Paulo, em seu editorial deste domingo, qualificou, no sentido de que "governo, estatal e Congresso mantêm inércia próxima da conivência."
Mas, o que a maior parte da Nação aspira é, sem dúvida, a responsabilização daquela que sempre vem se esquivando, a presidente Dilma, recém reeleita num clima de desconfiança sobre fraude eleitoral e outras irregularidades.
Como sugeriu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, está na hora do povo "sair às ruas".

domingo, 28 de setembro de 2014

Marina e o caráter nacional.

Marina e o caráter nacional.


Marina apareceu na disputa presidencial em virtude do trágico acidente sofrido pelo candidato Eduardo Campos, da qual era vice na chapa e se tornou substituta nesta disputa.
Marina que já havia disputado a eleição presidencial anterior, embora não vitoriosa, já conquistara 20 milhões de eleitores e se apresentava com boas condições de carregar o ideal de Campos. À época que assumiu o encargo deixado por Eduardo Campos, a dupla amargava o terceiro lugar nas pesquisas de opinião. E, em uma semana a nova postulante encostou na primeira colocada, tornando-se um tsunami político e preocupando Dilma e Aécio, atônitos com a situação.
A reação dos dois veio com ataques furiosos à pessoa de Marina atingindo-a por insistentes propagandas difamatórias tanto no horário eleitoral como nas redes sociais. Dilma, a mais prejudicada nos índices de preferência das pesquisas, foi quem mais usou de técnicas sujas e o resultado foi eficiente.
Se verdadeiros os dados das pesquisas, atualmente Dilma voltou a liderar, com folga sobre Marina e Aécio, no primeiro turno. No segundo turno, se ocorrer, a situação embora indefinida, ainda coloca Dilma como vitoriosa.
Tudo isso nos leva a crer que, mesmo o Brasil encontrando-se no período mais prolífico de corrupção e na maior crise econômica, no governo Dilma, a população mostra-se insensível a mudanças, levando a crer que aos estudos sistemáticos sobre o caráter do brasileiro, tão bem delineados por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Euclides da Cunha e, mais recentemente, Dante Moreira Leite (O caráter nacional brasileiro, Ed. Unesp, 2002), e muitos outros, irá se somar aqueles que se incluem aos de sociabilidade, conformismo, apatia, cordialidade: o da ausência total de amor à política e à moral. Neste sentido cabe lembrar as lições de Bobbio, Matteucci e Pasquino (Dicionário de Política. v.2. Brasília: Universitária, 1995. p.962 , sobre o contraste entre moral e política, entendido como o contraste entre ética individual e ética do grupo: "A afirmação de que Política é a razão do Estado encontra perfeita correspondência na afirmação de que a moral é a razão do indivíduo. São duas razões que quase nunca se encontram: é até desse contraste que se tem valido a história secular do conflito entre moral e Política".
Ora, o Brasil, após 12 anos de governo petista, encontra-se à bancarrota, o período foi o de ocorrência de maiores corrupções, principalmente ligadas ao PT e seus dirigentes, do qual a atual presidente faz parte e almeja a reeleição e, mesmo surgindo alternativas como Marina e Aécio, as pesquisas apontam Dilma como a preferida dos eleitores.
Ou seja, vencendo Dilma, como apontam as pesquisas, estaremos realmente comprovando que no Brasil mais dois aspectos perfazem o perfil nacional, outrora analisado pelos estudiosos dos aspectos sociais citados: ausência total do amor à política e à moral!

domingo, 17 de agosto de 2014

Campos: a sinfonia inacabada?



Campos: a sinfonia inacabada?


A súbita e inesperada morte de Eduardo Campos abalou tragicamente o cenário político nacional. O dia 13 de agosto de 2014 soou como um corte abrupto numa sinfonia harmoniosa que o então maestro ceifado pela morte prematura ensaiava para o porvir de nossa nação.
Sim, Eduardo Campos, embora marcado em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais das eleições presidenciais, na qualidade de jovem promissor na política, e no entanto já veterano em seu estado natal Pernambuco, vitorioso em dois mandatos governamentais e com gestões exemplares, tal como um fênix na política, surgiu, brilhou e foi levado, não por uma estrela cadente, mas por uma falha não esclarecida em seu último voo de campanha na cidade paulista de Santos.
O Brasil, judiado por governos petistas durante mais de uma década, com crescimento zero e economia claudicante, teria em Eduardo Campos, se eleito, a chance de retornar aos trilhos do progresso.
Faço tal afirmação porque acompanho a trajetória de Eduardo Campos desde 2008, quando em Washington, D.C., tive oportunidade de assistir uma palestra dele, em um instituto americano destinado a estudos brasileiros. Naquela oportunidade, o jovem governador pernambucano, de DNA socialista (neto de Miguel Arraes), perante uma plateia composta de embaixadores e autoridades americanas, inflamado, falou das vantagens em se investir em Pernambuco e mais especificamente, mostrando seu inconformismo quanto a não existência de voos frequentes entre Recife e os EUA, mesmo existindo naquele estado a maior fábrica de Coca Cola fora dos EUA.
Naquele momento percebi a chama do estadista em ebulição e o carisma que envolvia Eduardo Campos. Terminada a palestra, estava eu a conversar com seu assessor de imprensa quando o governador se aproximou e sabendo ser eu brasileiro e tendo elogiado sua palestra, aproximou-se e num abraço sincero agradeceu minhas palavras com a simplicidade dos grandes. Ali, naquele momento, não havia nenhuma conotação demagógica. Era um ato sincero.
De lá para cá, venho acompanhando os passos de Campos, sempre comprovando minhas previsões de que algo maior estava para vir. Quando se candidatou, logo me manifestei favorável a sua eleição, por estar convicto de que seria a melhor opção entre uma Dilma incapaz e um Aécio que nunca convenceu, além de oferecer uma opção ao eleitor cansado da polarização PT/PSDB. Suas ideias e programas batiam com minha visão socialista moderna, fato que Eduardo encampava com maestria. Inclusive, a revista Veja, informa que, em entrevista realizada três dias antes da morte, Eduardo Campos, inquirido sobre seu socialismo com vertentes capitalistas, explicou com facilidade:
"O senhor é socialista? Claro que sou socialista. Mas à medida que o mundo avança, o socialismo vai tendo releituras. O que é ser socialista no século XXI, no Brasil de hoje? É defender a educação em tempo integral, um sistema de saúde pública que funcione, uma política de segurança que proteja jovens e negros da periferia, passe livre e um sistema de transporte público de qualidade" (in "Eduardo Campos, um socialista com métodos capitalistas", Veja).
Pois sim. Esta ideia de sobrepujar a educação como prioridade de governo, apesar de tão óbvia no Brasil, cantada em versos e prosa pela maioria dos políticos tradicionais, nunca foi alçada a primeiro plano, a não ser por outro bom político, por sinal também pernambucano, Cristóvão Buarque, que sempre procurou destacá-la. Eduardo Campos vinha defendendo a educação integral para todas as classes sociais, sonho daqueles que entendem ser esta a única solução para a transformação do país.
Sua morte precoce e trágica interrompe as esperanças de um horizonte político de grande porte, no entanto, fica na memória de todos aqueles que o reconheciam como o maior líder político brasileiro da atualidade, uma de suas últimas frases proferidas na última entrevista dada na Rede Globo quando, insistentemente atacado por perguntas idiotas feitas pelo arrogante William Bonner, terminou dizendo de forma otimista: "Não desistam do Brasil!"
O episódio da morte de Eduardo Campos é marcante na vida de todos nós. A mim se assemelha à morte do filósofo grego Sócrates, um defensor intransigente da ética do coletivo sobre a ética do individual que, pelo ideal, caráter, deixou de fugir da aplicação da pena de morte (impedindo que seus discípulos o auxiliassem e acobertassem para manter-se fiel a ética e ao respeito às leis).
Na obra "Curso de Filosofia do Direito" (Bittar, Eduardo C.B; Almeida, Guilherme Assis de. São Paulo: Atlas, 2001.p.62-62) há significativa explicação sobre a ideia de morte para Sócrates, que se aplica na tragédia ocorrida:
"Para Sócrates, a morte representa apenas a passagem, uma emigração, e a continuidade há de ensinar quais valores são acertados, quais são errôneos. Se a vida é uma passagem, é porque a morte não interrompe o fluxo das almas, que preexistem e subsistem ao corpo. Não é a efêmera vida o começo e o fim de tudo, mas apenas parte de um trajeto. Ao homem é lícito especular a respeito, porém a certeza do que será somente os deuses possuem."
É o que esperamos. Que a morte de Eduardo Campos não seja em vão. Que seja o começo de um novo Brasil.
Assim acontecendo, poderíamos concordar com o mesmo Sócrates quando afirmou:
"Renascer, se existe um regresso da morte à vida, é realizar esse regresso. Por este motivo nos persuadiremos de que os vivos nascem dos mortos, como estes daqueles, prova incontestável de que as almas dos mortos existem em algum lugar, de que retornam à vida." (Platão, Fédon, trad., 1999, p.134) in (op.cit., p.63, nota 2).
Que a sinfonia, ao contrário da "Patética" de Tchaikovsky (Sinfonia n.6 em si menor Op.74,1893), que retratava a tristeza do compositor prestes a morrer e considerada pelos críticos como "inacabada" por fugir à regra, não seja considerada inacabada e que os seguidores de Eduardo Campos saibam levantar a bandeira e continuar a trajetória tão bem delineada pelo mesmo.